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Por uma humanização

Incluído por Karla Fioravante | dezembro 10, 2009

 

Vejo aqui um espaço em que posso transpirar. Um espaço que me cabe… Em que posso desabafar sobre algumas coisas que ficam entaladas. Então, vamos lá. Além de uma verbalização, creio também que muitas pessoas já vivenciaram isso, algo que certamente não é novo, e o novo deveria sim, ser diferente da realidade vista.
Sou da área da Saúde, faço agora o meu terceiro curso de especialização nesta categoria, talvez possa me permitir a fazer alguns comentários sobre o que trago hoje…
Quando somos estudantes lidamos com casos clínicos, observamos atentamente seus detalhes, antecedentes, etc… Somos “treinados” a ver nesses detalhes possibilidades de transformação, ajuda.
O que muito me surpreende é quando somos pacientes/”reféns”, quando a vida inverte as relações, os papéis, e vemos o outro lado da ‘coisa’.
Não é de hoje que escrevo sobre o cotidiano, sou das vias onde todos passam, todos usam… Sou individuo, gente… E, gostaria muito de ser tratada como tal, mas não é muito desta forma que as coisas funcionam em algumas situações.
Nesta semana passei por uma intercorrência com meu pai. O mesmo precisou ser internado às pressas na Unidade de Terapia Intensiva, de um hospital no qual pagamos plano de saúde há mais de 15 anos e já ficou internado em outras ocasiões.
Fico atônita com o tratamento dos meus ‘colegas’ de área. Claro que não posso generalizar, de umas sessenta pessoas que trabalham num ambiente como esse umas três ou quatro, no máximo, conversam com a gente. A grande maioria já está acostumada com aquele sofrimento e desespero. Todos os dias entram pessoas doentes ali, e os acompanhantes, familiares etc, estão em prantos, desesperados… Mas, os profissionais já não mais se comovem, procuram não olhar para a gente com medo de serem solicitados. E, assim se segue tal ‘atenção’ principalmente para com o paciente…
Quando precisam de alguma informação, é muito rápido, pois o “lucro” não é ficar ouvindo o paciente ou o seu acompanhante. Então, precisa ser muito rápido. A conduta é feita, e dificilmente informada ao paciente. Ninguém olha nos olhos, apenas trabalham e deu o horário de sair: fim do expediente. Troca-se a equipe.
É… Faz parte do dia-a-dia de médicos, enfermeiros, técnicos, etc, etc, etc… Horário de visita, somem, é o horário de sumirem!
Humanização, sim… Da própria equipe para que haja humanização no tratamento junto ao paciente.
Não estou aqui falando de planos de Saúde top, onde existe hotelaria cinco estrelas, onde se ganha e se paga muito bem por essa ‘humanização’. Eu estou falando da realidade do povo Brasileiro. Que em grande quantidade depende do SUS, e alguns planos de saúde que, diga-se de passagem, são bem mais caros do que o valor do Salário Mínimo. Convenhamos, grande parte da população é pobre.
É um ambiente restrito esses tais Hospitais ‘humanizados’.
Hoje fui fazer a terceira visita na UTI… Havia um médico [de costas], fazendo suas prescrições diárias, que sequer levantou os olhos para os que ali adentravam. Uma agulha colocada errada no braço do paciente ao lado fazia com que o medicamento estivesse sendo aplicado na pele e não na veia (como deveria). Depois de algumas chamadas aos funcionários, o acompanhante foi ouvido e a solícita enfermeira resolveu puncionar outra veia. Pequeno fato, diante de tantos que não estão aos nossos olhos.
Pensei: Estou há seis anos falando de humanização na saúde mental… A luta para inclusão social dos pacientes psiquiátricos, aderindo à Reforma Psiquiátrica, trabalhando em CAPS, tentando dialogar com as equipes multidisciplinares, abstraindo conteúdos para um melhor tratando do paciente… E percebo, falta tanto… Falta muito! Não só em uma área especifica da medicina, mas na totalidade da Saúde no Brasil.
Lidar com o sofrimento alheio não pode se tornar mecânico, ato de obrigação, descaso…
É triste ver a historia da novela das 20h da Rede Globo… Mostra a difícil realidade uma jovem rica que ficou tetraplégica. Quantas verdades estão ali, e quantas irrealidades começando pelo ambiente luxuoso e todas as possibilidades que ela tem, ou não, por estar bem atendida.
Observemos, pois, o que nos informa de bom esse quadro, pois o ambiente hospitalar, é bem irreal, ou real para determinadas classes.
Para finalizar, repito: Não estou generalizando. Graças a Deus existem muitos profissionais que se importam… Apenas apontando que existe essa realidade fria nesses ambientes. E que por mais que seja difícil a situação deve começar de nós, profissionais da saúde, tratar as pessoas como gente. Ninguém está em hospital porque gosta de passear em PS e ficar internado. É um ambiente que espera humanidade real de nossa parte. Não caiamos no comodismo, na inércia, ou na apatia. Cuidemos do outro, pois é isso que nos propomos:doar-mo-nos pelo ser humano em nossa profissão.

 

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15 Responses to “Por uma humanização”

  1. Shinayde Diz:
    dezembro 10th, 2009 at 12:41 am

    E o seu pai, está melhor? Já saiu da UTI?
    Estarei rezando por ele…
    Deus te abençoe!

  2. FTB Diz:
    dezembro 10th, 2009 at 5:13 pm

    Triste, revoltante…porém real e, o pior comum!
    Na realidade, acho que a maioria das pessoas, que buscam uma qualificação profissional, já não estão mais atentas àquilo que lhes causa prazer ou à vocação, mas buscam essa qualificação pensando na recompensa financeira, no campo de trabalho…E é aí que o humanismo,se apaga; o humanismo existe quando o profissional seja da saúde ou qualquer outra área, alia o profissionalismo com o sentido de que, não estou fazendo isso por causa do financeiro, mas estou pq essa é a minha vocação, ajudar o próximo, dar-lhe atenção, assistir-lhe com carinho, isso me dá felicidade, me faz melhor…para ser humano, é necessário colocar-se no lugar do outro, a fim de entender o sentimento que o aflige e ajudá-lo.
    Infelizmente a saúde pública brasileira, e até mesmo esses convênios com políticas e preços fora do normal, não funcionam hábilmente!Não se dá e nunca se deu o verdadeiro valor a saúde!Enquanto os mais providos economicamente tem acesso a tratamentos estéticos com um sistema de luxo, os menos favorecidos estão em leitos improvisados nos corredores, com uma assistência médica ineficiente e sentindo-se esquecidos, abandonados, sem ninguém por eles!Triste realidade!Desculpe-me ter desviado do tema principal, mas é que o sistema de saúde brasileiro é assustador!
    Estimo melhoras ao seu pai!Abraço Afetuoso de Paz e Carinho!

  3. Fatiminha Diz:
    dezembro 10th, 2009 at 6:32 pm

    Triste e revoltante a nossa realidade. Só quem tem muito dinheiro tem direito à atenção, ao cuidado, à dignidade.
    Quem trabalha igual louco pra sobreviver não merece nada de volta…
    A vida não é só dinheiro… o dinheiro um dia acaba. Aquilo que vc é e que vc luta a cada dia é o que importa realmente…
    Lidamos com pessoas e não com objetos. Lidamos com vidas e não com restos…
    Falta humanidade e dignidade aos seres humanos…
    E nós é que somos os seres racionais…

  4. Roberto Wagner (Aracaju-SE) Diz:
    dezembro 11th, 2009 at 12:31 am

    E pensar que “esses profissionais” (sem generalizações) sonhavam em se tornar médicos, enfermeiros… profissionais da saúde. Sentiam que nasceram para isso, para lidar com a saúde e com o restabelecer desta. Viam na dor do outro motivação para tentar fazer algo, para amenizar os sofrimentos e por fim darem razão à vida, tanto deles como de quem tratassem.
    As maiores virtudes que anseia o sonhador para com a voação que dizem possuir… são sublimes.
    Parece que o aprendizado e a prática torna o sonho em pura ambição, em números… Em $, em prontuários, em prescrições, em receitas, em créditos, em clientes…

    Clientes… sim. Não “somos pacientes”. E com o perdão do trocadilho isso me deixa impaciente! E não é de hoje… Acho que meu sonho como profissional ainda não acabou, pois esse cenário existe em todas as áreas…
    Olha-se a roupa de quem se atende, suas posses, seu linguajar, sua aparência, suas atitudes… seu currículo, seu sobrenome… cargo, origem famíliar… etc.
    Novelas como a atual denunciam e mostram algo, mas também deturpam… Sempre nelas, nesse modelo, predominam as famílias ricas, onde tudo é fácil e as pobres são sempre amigas das ricas que as tratam com “igualdade” afinal de contas nessas novelas, quase todo rico é “humano” e quase todo pobre é “coitado”.
    Até a expressão “coitado” é questionável se olharmos sua origem epistemológica.
    Tenho receio dessa humanidade abastada que repasse uma imagem de assistencialismo…

    Curioso… o “ser” Cristão passa antes pelo Humano! E para “ser” Humano passasse primeiro por onde?

    P.S.> Que teu pai esteja melhor e que o Deus Pai, Filho e Espírito Santo o restaure e volte para ele sua face e o abençoe sempre…
    SAÚDE, PAZ… E BEM.

  5. Karla Fioravante Diz:
    dezembro 11th, 2009 at 12:48 am

    Agradeço pelas preces, pela intenção de cada coração. Tudo caminha bem por aqui. Abraço a todos… E… caminhemos rumo a sensibilização humana..

  6. Socorro oliveira Diz:
    dezembro 11th, 2009 at 2:02 am

    Minha querida acredito que esse pais tem jeito… Porém só quando as pessoas começarem a pensar no Pronome NÓS é que veremos situações como essas acabarem…

    Estimo melhores e aceite as minhas orações ao seu pai…

    Um forte abraço…

  7. Bel/SC Diz:
    dezembro 11th, 2009 at 11:04 pm

    É Ká…

    Triste realidade… dura realidade…

    Estou em oração por vc e sua família!!

    Abraços carinhosos…

    Bjos

  8. Mayara Barbosa Diz:
    dezembro 12th, 2009 at 3:53 am

    Na facul ouço falar o tempo todo em humanização. Humanização da área de saúde!Deveria ser meio redundante pedir para um ser humano se humanizar, não é?!Mas por mais incrível que pareça, É preciso PEDIR humanização. Eu estou no 4º período de enfermagem, acabei de terminar o meu primeiro estágio e confesso não ter ficado feliz com a qualidade da assistência que vi.
    Estagiei em um hospital público que é referência no Nordeste em uma determinada área. É um hospital novo, que tem boa estrutura, equipamentos de última geração…
    Mas algo que ficou na minha memória foi um paciente que sempre dizia uma coisa quando nós (alunas) chegávamos lá.
    Íamos todas de branco e ele costumava dizer: Chegaram os anjos de branco!
    Conversávamos com os pacientes enquanto realizávamos os procedimentos e o que eles nos contavam fazia com que tivéssemos certeza das profissionais de saúde que NÃO queríamos ser!
    “Gosto tanto qd vcs vem,vcs cuidam tão direitinho da gente.”
    “Vcs fazem o curativo com tanto cuidado,a menina que sempre faz parece que não tem “pena” da gente.”
    Não estou me gabando, não fazíamos nada demais. Só, cuidávamos! Estávamos ali pra aquilo mesmo.Infelizmente,podemos, sim, dizer que 85% dos profissionais de saúde, hoje, vêem o paciente como leito e patologia. Entendem?
    “Aquele é o 127 A da Estenose Mitral?!”
    Eu sou péssima fisionomista. Mas me esforçava ao máximo pra chamar as pessoas pelo nome.É o mínimo que podemos fazer…
    Peço a Deus pra que o tempo na profissão não me torne insensível à dor do outro.
    Convido os meus colegas da área,já que é preciso pedir… :
    Vamos humanizar a assistência… Pq cuidamos de GENTE e não de máquinas. Pq o paciente/cliente merece respeito,merece cuidado,merece ser tratado como gente, que é…
    NÃO nos acostumemos com o sofrimento. É preciso se colocar no lugar do outro pra que a gent possa CUIDAR melhor… “doar-mo-nos pelo ser humano em nossa profissão.”

  9. Mayara Barbosa Diz:
    dezembro 12th, 2009 at 3:56 am

    Eitaaa…desculpemmmm…o comentário ficou enorme…rsss…me empolqueiii…rss
    bjus em todos e todasss…

  10. Mayara e Mayra Diz:
    dezembro 12th, 2009 at 4:11 am

    Tamos rezando aqui,viu,K.Pelo seu pai e pela sua família…bju,meninaaa…

  11. Sara de Oliveira Diz:
    dezembro 13th, 2009 at 1:38 am

    Por tras da aparencia fisica, ha uma pessoa… com sua historia, seus medos, suas dores, seus anseios e desejos. No entanto, tantos esquecem disso. No mundo do trabalho, infelizmente muitos fazem por fazer, fazem por grana e isto e triste, mto triste… Mas ha um grande detalhe da vida que nao podemos esquecer… o mundo da voltas e o que fazemos e como fazemos, vai e volta….

    Karla, bela reflexao e pura realidade!!

    Estimo melhoras ao seu pai.

    Abraco!!!

  12. Lúcia Mandu Diz:
    dezembro 13th, 2009 at 1:07 pm

    É Karlinha, a Saúde de um modo geral não vai nada bem.
    Tive uma experiência anos atrás com o meu pai que se operou no Hospital de Câncer de Pernambuco. Graças a Deus ele “se deu bem”, mas necessitei contratar uma enfermeira particular para dar um pouco mais de atenção, o que deveria ser um ato natural, mas não é. Apesar de não sermos de uma classe média alta, mas no momento era necessário utilizarmos todas nossas economias para dar um tratamento melhor ao meu pai. Ele ficou internado por 15 dias, e outros 15 dias necessitou de cuidados especiais em casa, e uma AMIGA que é enfermeira, nos ajudou a cuidar dele nesse período. Ah AMIZADE é tudo!!!…..
    Rezo a Deus para que seu pai esteja recuperado. E que Deus o abençoe e a você. Continue lutando.
    Beijaum

  13. Apolonio Diz:
    dezembro 16th, 2009 at 2:07 pm

    sou estudante de Serviço social e vejo o descaso diarios com a saude no Brasil o sistema atrofiou a humanização dos profissionais e que tratam apenas das doenças e não dos pacientes, mais é como vc disse existem bons profissionais, ainda bem néh

    nuss imagine !!

    um curso de Humanização para seres humanos

  14. Karina Suzuki Diz:
    janeiro 8th, 2010 at 2:58 am

    Fiquei distante daqui por uns dias, só agora soube do que aconteceu com seu pai. Deus está cuidando, Karlinha…

    Há tempos não me conformo com o tratamento da maioria dos “especialistas da saúde”. Qd sofri acidente e fui tirar os pontos do pé, o médico arrancou com a maior estupidez e ainda não tinha cicatrizado. Além da dor intensa, uma parte ficou aberta, exposta…Não tínhamos condições, enfrentava 5, 6 horas nos corredores do SUS, muitas vezes em pé, apoiada por muletas…Saber que tantas coisas poderiam ser diferentes, tantos sofrimentos evitados, desde que o ser humano fosse humano…

    Lamentável…revoltante…triste…

    K, sempre juntas nas orações, no coração de Deus.

    Ele cuida de nós… Bj

  15. josi-Se Diz:
    janeiro 13th, 2010 at 3:32 am

    Karla,esse texto lembrou-me o dia em que eu levei o meu pai p o hospital e chegando lá…passamos quase 30 min p ser atendidos.Qndo o médico chegou,na maior folga..falando no celular sobre suas fazendas..e meu pai lá na sala com fortes dores..Olha,aquele médico não tinha Deus no coraçao.

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