
Uma mulher aparentando uns 27 anos, toca a campainha da casa de Dra. Fátima… Ela vai até o portão principal e a mulher com olhos de verdade diz: Perdão incomodá-la… Preciso de um trabalho, sou empregada domestica, limpa, honesta… darei o meu melhor se a senhora me confiar um trabalho…O que meu marido ganha não é suficiente… Não sou má pessoa, vim de muito longe! Me conceda tal chance…
Dra. Fátima por algum motivo sentiu segurança nas palavras dela… Estendeu-lhe a mão, disse para começar no dia seguinte…
Antes do horário marcado estava pronta a trabalhar… Dra. Fátima deixou escrito em um bilhete as compras que Silvia deveria fazer naquele dia…
A empregada limpou a casa, lavou, passou… Trabalhou de forma árdua! Fez tudo como fazia em todas as casas que já havia trabalhado…
No fim do dia pegou seu dinheiro para o transporte dentro da bolsa surrada e foi embora. Olhava para as cores de cada ônibus, ou pedia alguma informação para entrar no ônibus certo… (…)
Dra. Fátima ao chegar notou a casa limpa, roupas lavadas, passadas… Ambiente brilhando, porém nada do que tinha escrito naquele bilhete foi feito!
No outro dia pela manhã Dra Fátima diz: Silvia, gostei muito do seu trabalho, parabéns! Deixei um bilhete com algumas compras, mas vc não foi ao supermercado… Por que?!
Timidamente, Silvia responde: Desculpe, Dra… tive trabalho demais pela casa, não tive tempo… Irei hoje!
Ao sair para o trabalho Dra Fátima agradeceu e se foi… Silvia ficou aflita… Pegou um carrinho que estava na dispensa e seguiu para o supermercado…
Fez as compras como fazia em outras casas que havia trabalhado… As mesmas cores, os mesmos cheiros… as mesmas associações… Incerta, voltou para seu trabalho!
No outro dia, Dra. Fátima nada disse, apenas lhe pediu para lavar a banheira que estava suja…
Silvia consentiu…
Abriu o armário da cozinha e viu aquele frasco claro, com aquele conteúdo amarelo e foi lavar a banheira…
Não entendia o porque ficava tão engordurada a banheira após aplicar o liquido daquele frasco… o cheiro era diferente… Demorou horas lavando aquele local! Ficou estranho, sujo… mal cheiroso….
Naquele dia esperou Dra. Fátima chegar… Mostrou a banheira daquela forma e abaixou a cabeça!
Dra Fátima pergunta:
- Silvia o que houve com a banheira? Está toda engordurada… Cheiro forte…
Ainda cabisbaixa: - Não sei o que houve, peguei o detergente em baixo da pia… e ficou assim!
- Mostre-me qual detergente… – Boquiaberta falou a doutora.
Quando Silvia mostrou o frasco com o liquido amarelo, Dra Fátima empalideceu…
- Silvia, isso é azeite!!! Você lavou a banheira com azeite!!!!
Comedida começou a chorar…
- Perdão, Dra… sou analfabeta. Não sei ler, nem escrever… Para pegar o ônibus para cá, várias vezes já peguei o ônibus errado… Hoje mesmo, um garoto agiu de má fé… e disse que deveria pegar um ônibus e fui para o outro extremo da cidade… Por Deus, não me mande embora…
Houve um momento de pausa e compaixão… Dra. Fátima não acreditava que uma jovem de 27 anos, em uma cidade como São Paulo, conseguiu se virar até hoje… Ao conversar com Silvia, notou que nunca teve dinheiro, pois as compras que fazia era sempre as mesmas que via nas casas das patroas, não sabia olhar preços, fazer cálculos, escolher marcas, não sabia qual era o ônibus que deveria pegar…
A partir disso, uma hora todos os dias, Dra. Fátima sentava-se com Silvia e ensinava a jovem a ler e a escrever! Começou por todos os produtos de limpeza, cozinha, e assim foi… Era inteligente, se surpreendia ao conhecer cada detalhe que lhe era explicado!…
Certo dia pegou o mapa do Brasil e não entendia como ela poderia estar ali, naquele contexto… Não tinha noção de direção que o NE era para cima de SP, e o Sul era para baixo de SP… Detalhes que para tantos e tantos é tão comum…
Reflitamos no valor da educação e dos educadores… (…)
Com o tempo, Silvia começou economizar, entendeu os preços… e, logo começou a freqüentar uma escola e concluiu o primeiro grau!
Bonito e real o gesto de Fátima, professora universitária, doutora em Psicologia Social… Alguém que fez algo concreto por alguém, entre tantos alguéns em um mundo coletivo, onde o indivíduo não é visto em singularidade…
Ainda é tempo…. o amor é atemporal, a caridade é ato e não apenas palavras!
O Brasil tem hoje cerca de 16 milhões de analfabetos. Segundo a pesquisa realizada pelo Ministério da Educação (MEC), metade deste número está concentrada em menos de 10% dos municípios do país. Mesmo não sendo inéditos, os dados do “Mapa do Analfabetismo” são “alarmantes”. Em nosso país existem aproximadamente 16 milhões de pessoas incapazes de ler e escrever pelo menos um bilhete simples. Considerando-se o conceito de “analfabeto funcional”, que inclui as pessoas com menos de quatro séries de estudo concluídas, o número salta para 33 milhões.